sexta-feira, 1 de junho de 2012

HERÓI COISA NENHUMA


Poucas coisas escravizam tanto como sustentar uma imagem impossível.
Acredito que fico mais bonita quando não escondo minhas fraquezas
E que me torno mais feminina, e não mais fraca, 
quando admito que preciso alguma proteção.


Percebo que me sinto mais inteira quando, 
em vez de bancar a heroína, eu admito que fraquejei e senti dor.


Admito que me considero mais sincera e até mais humana
Nos momentos em que assumo que quis desistir, pedir auxílio 
ou simplesmente sentar e chorar, feito criança ferida.


Me parece mais digno ser honesta comigo mesma 
do que compor uma estampa falsa de eterna vencedora.
Nenhuma pessoa no mundo jamais venceu todas a batalhas
e muitos campeões perderam muito até atingir, momentaneamente, o topo.


Desconfio que relutar e brigar podem impor algum respeito ensaiado mas, 
infelizmente, respeito pode não ser afeto - às vezes é apenas medo.
Embora o caminho do poder pareça, para muitos, tão atraente,
nada é comparável à força dócil do amor. (Juliana Davi)


quarta-feira, 30 de maio de 2012

MESMO QUE TUDO SE ACABE


Eu quero ser feliz mesmo que o mundo se acabe.
Mesmo que perca parte de meus bens, que meus amigos se mudem,
que minha família resolva não mais me visitar.
Quero aproveitar o dia mesmo com o coração às vezes ferido,
pois o que é uma ferida perto de todo o bem que já tive
e de tudo o que ainda posso ser?


Se meus amigos se forem, pensarei que voltarão
Ou que farei novos, embora a saudade aperte.
Se os amores, embora belos, forem se perdendo pelo caminho
Que sejam felizes, porque eu certamente serei, com ou sem eles.
Se meus entes queridos se mudarem,
poderei visitá-los, mesmo que morem longe.


E se esta simples casa em que moro desabar
De algum modo eu a colocarei de novo em pé
E a lembrança do que ela foi me alimentará 
Até que eu possa reconstruí-la.


Posso fazer com que meus desejos ganhem força
Mesmo que hoje eu não saiba exatamente como.
Se o ontem ou o hoje forem sombrios, ainda tenho o amanhã
E diante de uma experiência sofrida
Ao menos tenho a chance de me tornar maior e mais forte.


A cada tombo, compreendo mais a vida
A cada engano, conheço melhor as pessoas.
Não quero reclamar de nada: embora saiba que algumas dores não se apagam
Quero fazer com que os sorrisos tenham mais força do que elas.
Eu quero ser feliz mesmo que o mundo se acabe. (Juliana Davi)



quinta-feira, 24 de maio de 2012

LUGAR ESTRANHO


Desembarquei em um lugar estranho
Em que as pessoas enganavam para conseguir o que queriam.
Lá, trabalhavam mais por status e dinheiro
Do que por amor ao serviço e às pessoas.

Depois de longa viagem,
desci no local onde os ventos não apenas sopram: eles derrubam.
Ali, o respeito era conseguido através do poder e do cargo que se tinha,
e não de atitudes justas e honestas.
Estas, às vezes, eram até mesmo vistas como ingênuas.

Neste lugar, cada pessoa cuidava, razoavelmente, de sua própria família,
entendendo que a sua era muito mais importante que a dos outros.
E a comunidade não formava uma grande família, mas um séquito de competidores,
famintos por algum reconhecimento, algum lugar ao sol,
mesmo que para tanto tivessem de se vender ou prejudicar o próximo.

Desci no lugar onde o sol gerava câncer e os alimentos eram tratados com pesticidas,
antes de receber dose generosa de conservantes, estabilizantes e corantes.
Estes produtos e também a água, de qualidade ruim, eram maltratados,
mesmo que todos soubessem que depois seriam ingeridos pelo povo.

Caminhei pela terra em que o amor é artigo de luxo, mas o sexo é frequente.
Sua forma mais vulgar era amplamente divulgada, à vista de crianças,
que cedo aprendiam a separar prazer de amor.
Neste lugar, as pessoas se protegiam o tempo todo e, com medo de se magoar,
desistiam de amar ou mesmo optavam por amar pela metade.

O fato de cada um pensar somente em si é o que fazia deste um local tão triste.
Lá, a natureza era destruída e alguns animais maltratados covardemente,
pois eram vistos como objetos, não como seres vivos.
Crimes eram frequentes, a ponto de as pessoas se habituarem a eles.
Eram o reflexo de uma doença muito maior do que a social, era a doença da alma.

Às vezes, eu ficava triste neste lugar, sentava à beira de uma estrada e chorava.
A forma estúpida como as pessoas se tratavam me feria por dentro.
Em vez de ir embora, fiz o que pude para tornar o local melhor.
E rezei, rezei muito, para que se conseguisse manter alguma transparência de alma,
e para que a sinceridade imperasse, rompendo o ciclo de destruição.
Outras vezes eu buscava refúgio aos pés de uma árvore, observando a beleza das flores.
Apreciando a perfeição do céu, felizmente, lembrei que este jamais será destruído pelo homem. (Juliana Davi)


segunda-feira, 14 de maio de 2012

FALSOS MESTRES

Não confio em ti
Porque tua voz, embora entoada docemente,
soa como grito aos meus ouvidos.
Me grita a tua audácia em pensar que me conheces
mais do que eu mesma, apesar de teres me visto tão pouco
e me escutado menos ainda.

Não confio em ti
Porque ao teu lado não há troca, há imposição.
Tu impões teus conceitos, tuas crenças
E me analisas como se eu fosse um objeto estanque,
sem direito a fala, a divergências, a opinião própria.

Pensas que me enxergas com os olhos da alma,
mas o que chega até mim não é teu amor,
e sim tua pretensão em auxiliar cada ser que de ti se aproxima
como se tu mesmo não necessitasse de ajuda.

Não confio em ti
Porque tua aparente calma não é calma: é controle.
Cada palavra parece ensaiada para me tocar fundo
E exatamente por isso é que não me toca.
Sabes intuir e te orgulhas do que és capaz de 'receber' ou 'curar'
Mas nada sabes a respeito do que sinto.
Eu não te abri esta porta.

Não consegues ouvir, apenas falar, sem pausa
E te colocas em posição de meu mestre sem que eu tenha te elegido como tal.
Tu traças um julgamento pobre a meu respeito sem me ouvir
E, depois, me falas em amor e luz.
Mas não há prece, cristais e imagens sagradas
que substituam o respeito verdadeiro.

Podes encher tua casa e tua boca com orações prontas ou intuídas
Mas nenhuma palavra vinda de ti me convencerá
Enquanto eu não enxergar em tua vida
o exemplo concretizado daquilo que pregas.

Mesmo se o mundo te amasse
ainda assim, eu te consideraria uma farsa.
Antes de pretenderes ser meu mestre,
faça um bem para a humanidade: cuida de ser mestre de ti mesmo.
Pára de investigar a vida alheia para não olhar a tua.
As pessoas sábias conseguem silenciar
e compreender que somente a vida é capaz de ensinar com maestria. 
(Juliana Davi)



sexta-feira, 11 de maio de 2012

INCRÉDULA


Embora eu saiba apreciar a companhia e a comida alheia,
me acostumei a caminhar sozinha 
até o lugar em que perco de vista de onde vim,
e a alimentar-me por minhas próprias mãos.

Embora eu consiga expressar afeto,
é muito mais fácil dizer o que penso do que demonstrar o que sinto.
Aprendi a levantar após os revezes e a lutar pelo que desejo,
mas me esqueci de admitir minhas fraquezas e de pedir auxílio.
Esqueci de confiar.

Não temo conflitos e combates,
sei atravessar o fogo cruzado da guerra,
mas não entendo as coisas do amor.

Posso facilmente doar ou emprestar minhas coisas,
só não sei como dividir meu espaço.
Preciso dele pra existir.

Sei como tomar decisões sozinha
e como suportar dias tenebrosos sem perder a fé.
Sei tornar uma desgraça algo menos amargo
e fazer as pessoas rirem.
Mas não aprendi, nem de longe, a ceder naquilo que me parece importante.

Absorvi o amor como algo distante, quase aéreo, impalpável.
Temo torná-lo mais real e destruir seu brilho.
Temo aproximar o amor e ver que ele nada mais era do que um sonho imaturo,
um desejo irreal, uma história que pertence a outras vidas, não à minha.

Não temo a solidão. Ela é minha casa.
O que mais temo é fundir-me no outro e, então, sumir
Tornar-me nada, opaca e inexpressiva, 
como já vi acontecer em tantas uniões.

O amor tem tantas faces!
Temo adormecer, envolvida por sua face bela
e acordar contaminada por sua face perversa. 
Ergui muros em torno de minha alma para protegê-la da dor e do frio,
e acabei presa no monumento que eu mesma construí. (Juliana Davi)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

POR QUE ESCREVO



Não escrevo apenas para desabafar, embora o papel e a tela costumem ser muito bons em receber e guardar aquilo que expresso.
Não escrevo para fazer parte do seleto time de escritores, embora eu possa apreciá-los profundamente.
Não escrevo como forma de me autoconhecer: quero mesmo é conhecer o mundo que está além de mim.
Escrevo porque a vida é muito bela e ampla para manter-se calada, e porque sinto que vale a pena honrá-la e registrá-la.


Escrevo porque é um meio de materializar sonhos e, de alguma forma, concretizar emoções.
Escrevo para tornar palpável essa vida que, embora se mostre e se expresse, transcende qualquer palavra que se possa inventar.
Escrevo porque amo, porque vivo, porque a vida em mim pulsa e escorre pelas palavras.
Escrevo para registrar meu espanto e surpresa diante do milagre de existir; mesmo que, aos olhos de alguns, tudo pareça tão banal. (Juliana Davi)







quinta-feira, 26 de abril de 2012

ADOECER NÃO É CASTIGO


Não te enquietes.
Adoecer não é desgraça do destino,
não é brincadeira de um Deus sádico,
nem castigo da vida.
Adoecer é parte do crescimento.

Não te apiedes de ti mesmo.
Adoecer não é calvário, embora às vezes possa parecer.
Por vias misteriosas, sem que percebas,
muitas vezes pode significar libertação.

Não te assustes.
Dor que é dor, assim como a alegria, passa.
É coisa que se expressa, atrai a atenção
e, com o tempo, se esvai.
Dor interna é chaga que se espalha e se cura no tempo,
com a medicina do afeto e da fé.

Não te acovardes.
Sofrimento não é pena;
é ponte para outra parte tua que, sem ele,
seria muito difícil acessar. 

Não te revoltes com os anjos ou os deuses:
a doença, ao contrário do que te ensinaram, não é punição.
Adoecer é um modo de o organismo expressar-se.
Esmorecer, assim como lutar, é parte do caminho.

Porém, não te acomodes
nem na doença, nem na dor:
sobrevive, absoluto, através delas
Como animal ferido que, embriagado de vida,
ainda insiste em prosseguir, até o último suspiro. (Juliana Davi)