Desembarquei em um lugar estranho
Em que as pessoas enganavam para conseguir o que queriam.
Lá, trabalhavam mais por status e dinheiro
Do que por amor ao serviço e às pessoas.
Depois de longa viagem,
desci no local onde os ventos não apenas sopram: eles derrubam.
Ali, o respeito era conseguido através do poder e do cargo que se tinha,
e não de atitudes justas e honestas.
Estas, às vezes, eram até mesmo vistas como ingênuas.
Neste lugar, cada pessoa cuidava, razoavelmente, de sua própria família,
entendendo que a sua era muito mais importante que a dos outros.
E a comunidade não formava uma grande família, mas um séquito de competidores,
famintos por algum reconhecimento, algum lugar ao sol,
mesmo que para tanto tivessem de se vender ou prejudicar o próximo.
Desci no lugar onde o sol gerava câncer e os alimentos eram tratados com pesticidas,
antes de receber dose generosa de conservantes, estabilizantes e corantes.
Estes produtos e também a água, de qualidade ruim, eram maltratados,
mesmo que todos soubessem que depois seriam ingeridos pelo povo.
Caminhei pela terra em que o amor é artigo de luxo, mas o sexo é frequente.
Sua forma mais vulgar era amplamente divulgada, à vista de crianças,
que cedo aprendiam a separar prazer de amor.
Neste lugar, as pessoas se protegiam o tempo todo e, com medo de se magoar,
desistiam de amar ou mesmo optavam por amar pela metade.
O fato de cada um pensar somente em si é o que fazia deste um local tão triste.
Lá, a natureza era destruída e alguns animais maltratados covardemente,
pois eram vistos como objetos, não como seres vivos.
Crimes eram frequentes, a ponto de as pessoas se habituarem a eles.
Eram o reflexo de uma doença muito maior do que a social, era a doença da alma.
Às vezes, eu ficava triste neste lugar, sentava à beira de uma estrada e chorava.
A forma estúpida como as pessoas se tratavam me feria por dentro.
Em vez de ir embora, fiz o que pude para tornar o local melhor.
E rezei, rezei muito, para que se conseguisse manter alguma transparência de alma,
e para que a sinceridade imperasse, rompendo o ciclo de destruição.
Outras vezes eu buscava refúgio aos pés de uma árvore, observando a beleza das flores.
Apreciando a perfeição do céu, felizmente, lembrei que este jamais será destruído pelo homem.
(Juliana Davi)